POV
Você é um cara comum. Nessa parte do país e época da história, isso significa ser branco, ter entre 1,75 e 1,80 e algumas tatuagens. Você não é exatamente bonito, mas quem se acostuma ou simpatiza consegue achar o que elogiar em sua aparência. Você gosta de mulheres, e mesmo não ignorando que isso lhe isente de uma grande parcela de dores de cabeça, toda sua atenção costuma residir nas dores que isso lhe causa. Você não ganha mal, mas também não sente que merece o que ganha, o que faz com que você passe o dia 05 se sentindo uma farsa e os últimos 11 dias do mês se sentindo um incompetente. Você já amou três vezes na vida e acredita ter sido correspondido em ao menos metade delas, admitindo que correspondência não anula sofrimento. Apesar de não sentir dor, você sabe que seu corpo está ferido. Se não fosse isso, não lhe custaria um esforço copioso levantar todos os dias. Às vezes você consegue com relativa facilidade, e quando isso ocorre, você se injeta de otimismo. Não há dúvida de que você está cicatrizando. É quando você sai e às vezes até se diverte. Não muito, mas o suficiente para ir dormir iludido. E aí você acorda, tateia o vazio ao lado da cama e o dia de ontem, enfim, vira só mais nostalgia.
Você pega o celular cuja tela está colada na parte traseira da sua coxa untada de suor. Você sequer formulou algum pensamento, mas já está instintivamente decidido a anestesiá-los. Você provavelmente faria isso mesmo que não houvesse sofrimento nenhum. Você abre o Instagram e não há nada muito interessante lá também. Uma mulher trans seguiu você de madrugada. Você não se interessa, mas mesmo assim decide conferir se ao menos ela é bonita. É mais do que a maioria das mulheres que costumam segui-lo e isso só lhe deprime mais; a última notificação é de um homem gordo engravatado curtindo uma foto antiga sua. Você se incomoda, mas censura o próprio desconforto. Não gosta de homofóbicos quase tanto quanto não gosta de gays.
Você olha para o ícone de mensagens e, envelopado em um círculo vermelho, há um número diferente de quando havia ido dormir. Seu córtex pré-sensorial abana o rabinho. Você clica no ícone de mensagem apenas para ver a empolgação dissipar-se nos instantes em que tenta assimilar a identidade do rosto desfigurado por um filtro pesado e o nome de usuário que seguramente não é um nome real. Então você se dá conta.
Você havia postado um meme de homem triste. Você sabe que isso soa antiquado. Os homens já não performam mais tristeza nas redes sociais. Em 2025, a raiva já é aceita. E por causa dessa raiva, nenhuma mulher jamais vai ter empatia com você ou qualquer outro. Mas você sabe que mesmo sendo um homem qualquer, você sofre. Sofre a ponto de conseguir se convencer de que não se importa com o que mulher alguma vai pensar. É esse meme que a moça, uma amiga da sua ex, respondeu. Você não considera o post sem graça, mas desconfia que as duas linhas de risada sejam exagero. Você lembra das vezes em que viu essa amiga da sua ex. Não foram muitas e ela não lhe chamou a atenção em nenhuma delas. Você estava com sua ex-namorada, afinal de contas. Ainda assim, você percebeu sutis indícios do que parecia ser uma rivalidade feminina ressoando nas críticas amistosas e nas brincadeiras que partiam dessa amiga. Você não comentou nada pois sua ex-namorada não parecia entrar no jogo. Uma rivalidade não correspondida é uma derrota humilhante.
Você responde com uma gracinha qualquer que não encerra nem avança a conversa. Ela responde de forma surpreendentemente rápida, mesmo que também não fale muito e vocês passam alguns minutos ameaçando interagir em um embate tácito sobre quem se resguarda mais. Ambos parecem sair vitoriosos. Dessa vez, porém, você não está performando. Não há disposição nem mesmo para as coisas que importam, quem dirá para futilidades. Você consegue tratá-la com insignificância e no fundo, sente algum orgulho disso. Duas horas depois, você está no kitnet dela.
Ela vai ao banheiro e pede que fique à vontade, deixando você com a mão estendida para que o gato cheire, como que se apresentando à ele. Você não está particularmente interessado em causar uma impressão boa a nenhuma pessoa, mas os animais são seu ponto fraco. Você inspeciona a escrivaninha: livros com capas geradas por inteligência artifical, um cinzeiro e algumas maquiagens. Na estante lateral, um toca-discos do tipo maleta lhe chama a atenção. Você nunca teve contato com nenhum equipamento desses, mas sabe por meio de reviews e discussões em fóruns que os danos provocados por eles costumam ser permanentes. Você decide alertá-la enquanto se aproxima da pilha. Belchior, Gal Costa, Jorge Ben e Secos e Molhados, empilhados ao lado, o convencem a desistir.
A amiga da sua ex-namorada retorna mais cheirosa e rosada. A percepção de que ela retocou a maquiagem no próprio apartamento devido à sua presença lhe desperta uma vaidade que você considera não caber a um sujeito comum como você. Mas talvez seja justo. Você tirou a barba e tentou parecer menos feio, mesmo desconfiando que sua aparência talvez seja a coisa que menos importa no mundo inteiro. Isso não incomoda, a invisibilidade é um dos privilégios do homem mediano. Você pôs a sua melhor camisa, que é uma camisa já velha mas cujo caimento disfarça bem sua gordura abdominal. Você não disfarça por vaidade, mas por costume. Subitamente você desconfia que a amiga de sua ex também só esteja lhe acostumando à ela.
Vocês falam algumas futilidades e sorriem mutuamente. Vocês se beijam. A gordura abdominal se interpõe, denunciando haver mais de ambos do que você esperava entre vocês. Você aceita sua saliência, mas precisa se esforçar para se conformar com a dela. Ela não goza do privilégio de ser um cara comum como você.
A falta de afinidade entre vocês é escancarada assim que a penetração inicia. Não há frescor, não há prazer, não há sequer ego sendo amaciado. O ritmo vai diminuindo e a expressão de prazer da amiga da sua ex decresce à medida que os pensamentos de ambos tornam-se claros. Sua expressão não é das melhores e você só se dá conta disso quando a dela se torna, enfim, um olhar de incredulidade. Você se apressa a guardar seu pênis borrachento enquanto a percepção de ser incapaz até mesmo de interpretar o grato papel de um peão sexual o flagela. O cheiro de cigarro mentolado, os pelos de gato, as manchas de umidade crescem, amplificando seu desconforto. A amiga de sua ex namorada percebe. Ela pergunta o que há de errado e você fala que nada. Ela pergunta se você estava pensando na sua ex-namorada, e você se dá conta de que aquela estranha já parece entender você melhor do que você mesmo. Você permanece em silêncio, não há o que ser dito, sua tez é transparente. Ela se compadece, aninha a cabeça em seu peito. Fala sobre o quão injusto foi o que sua ex fez com você, mas que agora tudo ficará bem. Tudo vai melhorar. Você tenta confiar nela, concordar com o que ela diz, mas se dá conta de que não queria ter que concordar ou discordar sobre nada. Você sabe que tudo que aconteceu não significa nada. Que não interessa o quanto você esteja sofrendo, e o quanto a amiga de sua ex pareça disposta a lhe acolher, o dia de hoje logo se converterá em uma história que ela conta para alguém que ela deseje acolher mais. Ou talvez para alguém que ela deseje que a acolha. Você só queria que não houvesse verdade alguma para ser dita sobre você além das que você escolhe mostrar.
Você olha nos seus olhos, olhos grandes e gentis, e desconfia que sua brochada talvez tenha sido o desfecho ideal para ela. Você enfim toma consciência do que está sentindo, mas isso não é catártico como acreditava. Por um instante seus punhos se fecham e você precisa se esforçar para não manifestar nenhum tipo de violência. Você se desvencilha da amiga de sua ex e vai embora ignorando a interjeição de susto que precede a porta sendo batida.
Você dirige rápido. Árvores, banhados e potreiros delimitam o horizonte que precede o bairro em que você mora. As paisagens assombram os cantos dos olhos enquanto você as ignora. Seus pensamentos borbulham em seu crânio e você entende que qualquer possibilidade de bem estar está ebulindo na mais sincera raiva. Você não odeia sua ex-namorada por não amá-lo, você a odeia por tê-lo jogado de volta à selva. Você não queria ter de performar charme, moldar o próprio corpo e correr o risco de ter suas piadas mal interpretadas. Você não queria ter de rolar a tela, seguir pessoas, postar coisas. Você não queria ter que se dividir entre o esforço para se interessar pelas coisas que lhe são ditas em encontros ruins e o esforço para conter o próprio entusiasmo em encontros bons. Você não queria detestar quando uma mulher se afasta devido às suas falhas do mesmo jeito que detesta quando elas gostam de você justamente por elas.
Você queria não ter que pensar nas coisas que não quer fazer. Você queria poder opinar pejorativamente sobre religiões de matriz africana e pessoas de mullets sem ser recebido com olhares de desconfiança. Você queria poder falar por horas sobre as sensações que o ectasy lhe proporciona e sobre como o mundo era perfeito até 2016. Você queria poder contar das vezes em que partiram seu coração sem que houvesse desconfiança alguma sobre seus méritos no ocorrido. Você queria poder mandar à merda qualquer pessoa que introduzisse política na conversa, não necessariamente por discordância, mas simplesmente por preguiça. Você queria ter a liberdade para ser pior do que as pessoas querem que você seja, apenas para poder ser bom pela própria natureza, e não porque lhe impõem isso.
O banco do carona está vazio. Não há ninguém para lhe ouvir, consolar ou puxar a orelha. Não há ninguém que você possa punir. Você mira os olhos marejados no retrovisor e sente um misto de pena e desprezo. O pedal direito afunda, a raiva enfim ebuli. Você era só um cara comum, afinal de contas.


